10 de set de 2010

Na calçada da fama: Manel e o coador


Carla Kassis Costa Farias*

Um sol escaldante, carros, pessoas, motos e bicicletas, esse é o cenário do qual a passos rápidos eu me aproximo. Inúmeras pessoas passam pelo calçadão de Imperatriz. Contudo, o centro da minha atenção naquela tarde está sentado na calçada, com um coador velho de café em mãos (o seu ‘saquinho’ de moedas).

Na verdade, a calçada é a companheira de Manoel Lopes de Sousa, 30 anos, o “Manel”. Deficiente dos membros inferiores, sujo, usando uma camiseta da política do ano de 2000, rasgada e com um odor nada agradável, é desta forma que ele vive sua vida.

Irreverente, não tem vergonha de exibir os seus poucos dentes, seu sorriso amarelo, e sua gengiva inchada. A pele visilmente queimada do sol forte, e alguns cabelos brancos contornam o seu olhar vesgo.

Como não gosta de ficar em casa, decidiu ainda bem jovem ir para as ruas, aventurar-se. Ninguém reclamou e até hoje ele continua na mesma esquina de sempre. “Trabalho aqui há muito tempo, quando eu cheguei o calçadão não era assim, eu vi tudo isso aqui crescer”.

Há mais de 20 anos ele recebe alguns trocados dos poucos que lhe dá uma mínima atenção de segunda à sexta entre 8h e 18h. “A maioria nem olha pra mim, mas eu fiz alguns conhecidos, gente de todo jeito”.

Por dia, ele leva pra casa de 10 a 15 reais. Quando as vendas no comércio aumentam os seus lucros também engordam. O coador de café é sua marca. Pergunto o porquê do coador, rapidamente ele ri. “Dura mais né? É mais fácil pra mim também, já é um saquinho”.

Sua deficiência é desde que nasceu. Tem sete irmãos, perdeu o pai, mora com a mãe e um irmão. Seu sorriso largo desaparece por alguns segundos. Ele não quer falar muito de sua casa, sua vida além do calçadão.

Enquanto conversamos, são notórios os olhares de alguns curiosos para a calçada. Sinto-me uma “celebridade” por causa dele. Também é bem verdade a popularidade do moço. “E aí Manel, tá sendo entrevistado é?” Alguns colegas entram na conversa e comentam sobre a história do amigo famoso.

“Meu nome é Zé, trabalho aqui há 17 anos vendendo frutas, quando eu cheguei ele já tava aí, é gente boa demais”.

Engraçado, Manel completa a frase do amigo “Eu sou famoso moço, o negócio aqui comigo é sério, eu me garanto”.

Abertamente ele fala sobre suas dificuldades. Mal sabe lê e escrever, não estudou, já foi alcoólatra. Sofreu maus bocados, mas, sempre soube seguir em frente.

Não reclama, prefere enfrentar a vida como ela é. “Se eu reclamar vai adiantar alguma coisa moça,não vai né?”.

Apesar de viver em condições muito simples, de ser o pedinte da esquina do calçadão, não se vê como uma pessoa triste, que depende dos outros pra tudo.

Pelo contrário, Manel se sente importante, diz que a esquina do calçadão não é a mesma coisa sem ele. Ele tem razão. Aos poucos as lojas vão se fechando.

O comércio vai ficando vazio. São 17h45 em seu Cássio preto digital, um clássico comprado por 10 reais na mão de um camelô. Manel se arrasta rapidamente. Contorna em questão de minutos as poucas pessoas que ainda passam por ali.

Ligeiramente chega ao ponto de ônibus. Com um olhar frenético, ele dá um salto no ônibus, suas mãos tornam-se mais que braços, são seus pés. Manel vai embora. O calçadão fica solitário. A calçada da fama não é a mesma coisa sem o seu astro.

O calçadão não é o mesmo sem Manel. E tudo agora ficou vazio.



*Estudante do 4º período de Comunicação Social – Jornalismo, pela Universidade Federal do Maranhão – UFMA. Texto produzido para a disciplina de Técnicas de Reportagem, tendo como prof. orientador Msc. Alexandre Maciel.

Um comentário:

  1. Caraca, eu conheço esse cara! rsrs, voces sao mesmo demais! A propósito, a moça que escreveu o texto é muito boa, parabéns!

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